Vivemos um tempo curioso. Nunca tivemos tantas ferramentas para nos comunicar e, ironicamente, nunca foi tão difícil ser compreendido. Nos infinitos grupos de WhatsApp, a "verdade" virou uma espécie de mercadoria barata, jogada à mesa entre um meme e uma discussão política. Mas há uma diferença abissal entre ser uma pessoa verdadeira e ser alguém que simplesmente despeja o que pensa sem filtro.
Para navegar nesse caos das interações digitais, convido você a uma breve jornada: vamos visitar as mentes de alguns filósofos do passado para tentar lançar luz sobre a realidade das nossas relações nas redes sociais. Embora eles não tenham conhecido o smartphone, eles entenderam como ninguém a alma humana — e é nela que moram as respostas para os conflitos de cada grupo de mensagens.
Muitas vezes, a filosofia nos ajuda a perceber que o que chamamos de "falar a real" pode ser apenas uma armadilha. A sinceridade sem o devido cuidado com o outro e com o contexto é, na maioria das vezes, apenas negligência fantasiada de honestidade. Usamos a bandeira da "verdade" para justificar a falta de zelo com as palavras.
A Verdade não é um porrete: O filósofo Immanuel Kant defendia que a verdade é um dever. Mas, ao transpor isso para o WhatsApp, esquecemos que a ética kantiana exige responsabilidade. Se a nossa "verdade" serve apenas para atropelar quem tem limitações de leitura ou escrita, ela perde sua função moral. A verdade deveria ser um ponto de encontro, não uma ferramenta de exclusão.
A máscara da "Minha Verdade": Nietzsche nos alertava que muito do que chamamos de verdade são apenas perspectivas. Quando alguém dispara um "sou sincero mesmo" em um grupo, pode estar apenas escondendo o próprio ego. A verdadeira sinceridade exige a coragem de olhar para si mesmo antes de julgar o outro. É entender que a nossa visão do mundo não é a única régua possível.
A Ética do Rosto Oculto: Jean-Paul Sartre falava sobre a "má-fé", aquela mentira que contamos a nós mesmos para fugir da responsabilidade. No mundo digital, a tela funciona como um escudo que nos desobriga do impacto que nossa fala causa. Sem o "olho no olho", a empatia deixa de ser automática e precisa virar uma escolha consciente.
Precisamos reconhecer que a computação, a internet e as redes sociais foram os maiores fenômenos da história da humanidade. Tudo isso está acontecendo em um espaço de poucas décadas, uma "disrupção acelerada", e isso explica porque os ânimos se exaltam tanto: nossa tecnologia é do século XXI, mas nossa biologia emocional ainda está aprendendo a lidar com a ausência do corpo e do tom de voz na comunicação.
Quem escreve, muitas vezes o faz sob a influência do seu ambiente e estado de espírito pessoal e sem o calor do afeto com o destinatário e quem recebe, interpreta através do filtro das suas próprias dores. O resultado é uma impressão de pouca empatia que gera respostas ainda mais agressivas.
Por isso, antes de clicar em "enviar", é preciso uma dose de reflexão racional. Respirar, reler e se colocar no lugar de quem vai abrir aquela notificação não é apenas etiqueta — é um exercício de humanidade necessário para os nossos tempos.