O resgate da pessoa holística

O resgate da pessoa holística

Até o início do século XX, o corpo humano era visto como um sistema integrado às emoções, ao ambiente e à espiritualidade. A medicina baseava-se em saberes milenares e tradicionais — desde o equilíbrio energético da medicina chinesa e do Ayurveda indiano, até o profundo conhecimento herbolário das benzedeiras e a homeopatia europeia. No entanto, em 1910, o Relatório Flexner — financiado pelas fundações Carnegie e Rockefeller — agiu como uma lâmina afiada. Sob o pretexto de 'cientificar' a medicina, ele estabeleceu o modelo biomédico como única verdade, deslegitimando essas práticas como meras superstições.

O interesse era claro: ao transformar o corpo em uma máquina estratificada, dividida em partes e especialidades, abriu-se caminho para o lucro. O que antes era tratado com o "psiquismo" ou métodos naturais, passou a ser endereçado a especialidades isoladas. Criou-se uma dependência química e tecnológica; afinal, a saúde holística é difícil de patentear, mas moléculas sintéticas e intervenções cirúrgicas são ativos bilionários.

Neste cenário, laboratórios químicos e farmacêuticos floresceram sob a proteção do novo modelo. O grupo Rockefeller, através da Standard Oil, viu o potencial de usar derivados de petróleo para criar medicamentos sintéticos. Empresas como a Merck, Eli Lilly e a Pfizer consolidaram seu poder ao fornecerem os fármacos padronizados que a nova educação médica exigia. Paralelamente, a indústria de corantes alemã (raízes da Bayer e da BASF) serviu de inspiração científica para essa transição, substituindo as ervas e a fé por compostos químicos patenteáveis e altamente rentáveis.

Essa medicina "em fatias" não apenas tratou doenças; ela moldou uma sociedade. Ao separar a mente do corpo, negligenciamos os efeitos do estilo de vida. Fomos empurrados para uma cultura de consumo e sedentarismo, onde o estresse é a norma e o corpo é apenas um receptáculo para sintomas.

Nesse cenário, a somatização tornou-se uma epidemia invisível. Como o sistema médico nos ensinou a olhar apenas para o "órgão quebrado", perdemos a capacidade de ouvir o que o nosso corpo tenta dizer através das dores. Tornamo-nos especialistas em calar sintomas com fármacos, enquanto as causas emocionais e sistêmicas permanecem intocadas, alimentando um ciclo perpétuo de doenças crônicas.

Nas últimas décadas, porém, o modelo puramente mecânico começou a apresentar fissuras. A ciência moderna, através da Psiconeuroimunologia, foi forçada a reconhecer o que os antigos já sabiam: o pensamento altera a biologia. O retorno ao corpo total não é um abandono da tecnologia, mas uma integração necessária. Autores contemporâneos como Gabor Maté e Bessel van der Kolk têm sido fundamentais ao demonstrar como o corpo "mantém o registro" dos nossos traumas e emoções, validando o que Flexner tentou apagar.

Hoje, vemos um movimento — ainda que modesto e muitas vezes resistente dentro das academias — de validação de práticas integrativas. Além da meditação e da acupuntura, ganham espaço a fitoterapia, a yoga, o reiki, a aromaterapia e as terapias de biofeedback, que juntamente com o reconhecimento da espiritualidade na saúde estão deixando o campo do "misticismo" para ocupar espaços em hospitais de ponta.

Estamos, de fato, voltando ao começo? Se por "começo" entendemos o reconhecimento de que não somos máquinas, mas seres psicossomáticos onde o todo é maior que a soma das partes, então a resposta é sim. O desafio do século XXI é reconciliar o rigor técnico alcançado pela era Flexner com a sabedoria holística que nos foi roubada por interesses comerciais. A cura, ao que tudo indica, não está em uma nova droga, mas na restauração da conexão perdida entre a mente e a corpo.