A gestão pública, em sua definição mais rigorosa, é o exercício do equilíbrio entre o poder e a responsabilidade. Um líder de Estado não é o dono das instituições que representa, mas sim o seu guardião temporário. No entanto, o que o mundo testemunha hoje com as ações de Donald Trump em relação à Groenlândia e à pressão sobre aliados europeus é a negação sistemática desse princípio. Quando a diplomacia é substituída pela coerção e a soberania de outras nações é tratada como mercadoria, a função pública deixa de ser um serviço ao bem comum para se tornar um instrumento de expansão narcísica ou até uma sofisticada cortina de fumaça.
O uso da agressividade geopolítica por Trump — abrindo frentes de ataque simultâneas através de tarifas punitivas e ameaças de anexação — revela uma estratégia deliberada de governar pelo caos. Historicamente, líderes que enfrentam investigações e crises de legitimidade interna tendem a fabricar inimigos externos ou objetivos expansionistas para desviar o olhar da opinião pública e das instituições de controle. Ao eleger a Groenlândia como o novo objeto de desejo nacionalista e punir a Dinamarca por exercer sua soberania, Trump não busca apenas minerais ou posição estratégica; ele busca reafirmar um poder sem limites, onde o arbítrio individual se sobrepõe aos tratados internacionais.
A responsabilidade de quem ocupa o cargo mais poderoso do planeta deveria ser a manutenção da previsibilidade e da paz. Em vez disso, vemos a instrumentalização do Estado para validar ataques a países soberanos, o que corrói a confiança mútua que sustenta a economia global. Esse comportamento não é apenas uma falha diplomática, mas uma afronta à própria essência da gestão pública, que deve ser pautada pela impessoalidade e pelo respeito às leis. Quando um governante se sente autorizado a ignorar a autodeterminação dos povos em nome de uma visão distorcida de grandeza, a democracia global entra em uma zona de perigo profundo.
O mundo não pode ignorar que esse roteiro de intimidação e desrespeito às fronteiras já foi escrito anteriormente. A ascensão de Adolf Hitler na década de 1930 foi pavimentada por uma retórica similar: a busca por "espaço vital", o nacionalismo exacerbado e o desprezo absoluto pelas instituições internacionais que tentavam frear sua ambição. Hitler também utilizava crises externas e o expansionismo territorial para consolidar seu controle absoluto e ocultar a natureza criminosa de seu regime. A história nos ensina que o silêncio e a complacência de hoje são o adubo para as tiranias de amanhã.
O alerta é urgente e necessário. Permitir que líderes contemporâneos, como Donald Trump, normalizem a ameaça à soberania alheia e utilizem a máquina pública para encobrir suas próprias responsabilidades jurídicas é um erro que a civilização não pode repetir. O autoritarismo se alimenta da passividade. Se não houver uma resposta firme em defesa da ética na gestão pública e da soberania das nações, estaremos fadados a reencontrar os fantasmas do século XX, permitindo que regimes autocráticos destruam, mais uma vez, os pilares da liberdade mundial.