Olhar para trás é um exercício de nitidez tardia. O título não é apenas uma metáfora poética; é o rastro do que se esvaiu enquanto acreditávamos que o tempo era uma fonte inesgotável. Hoje, percebo que muito do que enfrentamos é fruto de um despreparo natural, aquela arrogância mansa da juventude que nos faz acreditar que o futuro se resolve por gravidade.
Falo aqui não apenas pela minha trajetória, mas pelas experiências de pessoas mais ou menos próximas que passam dificuldades por não terem visto "a banda passar". Fomos lançados ao mundo sem o manual de instruções mais básico. A educação financeira, por exemplo, para muitos de nós só chamou a minha atenção quando já era adulto. E teria feito muita diferença se soubesse que podemos fazer um planejamento financeiro pessoal. Muitas das pedras que carregamos hoje nos sapatos são consequências diretas de uma educação que nos ensinou a teoria do mundo, mas nos deixou analfabetos sobre como gerir o fruto do nosso próprio suor.
O planejamento famíliar segue essa mesma lógica do improviso. O casamento em si não vejo empecilhos significativos mas, ter filhos e filhas é um projeto de eternidade, mas muitas vezes o tratamos como um capítulo que se escreve conforme o vento sopra, sem o detalhamento necessário. Da mesma forma, os encontros da vida — como casamentos com diferenças dilatadas de idade, quando sinceros — carregam belezas únicas, mas exigem uma engenharia de futuro que ninguém nos ensina a projetar. É preciso pensar o tempo do outro junto ao nosso, sob pena de a conta não fechar logo ali na frente.
Muitos de nós caímos na armadilha do descanso prometido. Sem ter a devida noção eu alimentava a ilusão de que a aposentadoria seria o momento de finalmente "botar os burros na sombra". Ledo engano. Ser surpreendido nesse estágio é extremamente penoso; a sombra é mais curta e o custo de vida é um sol que não perdoa. E o envelhecimento, na continuidade desse processo, vem cobrar o que negligenciamos: as faltas de exercícios e os hábitos alimentares negligentes anotam seus juros na nossa conta física.
Fica aqui o registro para quem está começando a caminhada: não somos super-heróis nem super-heroínas. Sem que tenhamos conta vivemos sob a doce ilusão de que nosso vigor físico terá sempre 25 anos, que nossos olhos enxergarão tudo com a mesma nitidez, de perto e de longe, e que nossa memória guardará cada detalhe sem falhar. Mas não é assim. A biologia e o tempo são matemáticos implacáveis.
Se esse formato de educação é determinado por algum tipo de sistema que nos mantém alheio à organização de nossa própria vida, não adianta especular aqui; temos que buscar os nossos caminhos naquilo que for possível. Apesar dos pesares e das janelas que passaram sem que as víssemos, sigo caminhando bem, dentro do que me é permitido. A sabedoria, afinal, consiste em aprender a reter as gotas antes que elas virem vapor, para que o futuro não seja apenas um rastro no ar, mas um solo firme onde possamos pisar com dignidade.