O Remédio para Barbariose

O Remédio para Barbariose

Existe um mal silencioso que não dói no corpo, mas sequestra o olhar. Eu decidi chamá-lo de Barbariose.

Diferente da barbárie — aquele estado bruto e antigo de ausência de civilidade —, a Barbariose é uma patologia da nossa era. É uma inflamação aguda da percepção, um processo infeccioso que ocorre quando o indivíduo é exposto a doses cavalares de desinformação fabricada. Quem padece desse mal não o faz por maldade, mas por contágio. Em algum momento, a realidade real tornou-se sem graça ou assustadora demais, e o "paciente" passou a habitar uma simulação desenhada para mantê-lo em estado de alerta e fidelidade absoluta.

O sintoma mais claro é o consumo do absurdo como se fosse pão diário. Veja-se, por exemplo, o caso recente de uma postagem em redes sociais sugerindo que o presidente Lula seria delatado por Maduro um líder venezuelano sequestrado pelos Estados Unidos. Para quem observa de fora, o roteiro parece um filme de ficção científica de baixo orçamento. Mas para quem sofre de Barbariose, aquilo é um bálsamo. É a peça que faltava para confirmar o que o seu grupo já sente.

E é aqui que precisamos ser cuidadosos. O comportamento humano, dizem os especialistas, é vulnerável. Nosso cérebro busca segurança no pertencimento. Quando alguém se perde nessas narrativas, ela não está apenas "errada"; ela está capturada por uma engenharia social que usa o medo como combustível. O "nós contra eles" é o sintoma febril dessa doença.

Mas, se o diagnóstico é psicológico, o remédio precisa ser sistêmico.

Não podemos esperar que cada cidadão se torne um perito em análise de dados ou um monge da paciência digital. A cura para a Barbariose não reside apenas na educação individual, mas no fortalecimento das nossas instituições de Estado, sobretudo as jurídicas.

Precisamos de um sistema de Justiça que não atue como censor, mas como um vigilante sanitário do intelecto público. Da mesma forma que confiamos que o Estado fiscaliza a pureza da água que bebemos, precisamos que ele garanta a integridade do solo onde as informações são plantadas. Quando o Estado age para extirpar a indústria da mentira e responsabilizar quem lucra com o caos, ele limpa o ambiente.

Sem o ruído ensurdecedor das mentiras industriais, a poeira baixa. E, quando a poeira baixa, as omissões dos noticiários e as meias verdades do cotidiano ficam expostas à luz do sol. O remédio institucional é o que nos devolve o direito de discordar sobre fatos reais, e não sobre fantasmas.

Fortalecer a Justiça é, em última análise, um ato de cuidado. É criar um escudo para que o cidadão comum não precise lutar sozinho contra algoritmos bilionários. É o protocolo necessário para que possamos, enfim, sair da quarentena ideológica e voltar a nos enxergar como semelhantes, partilhando o mesmo mundo e a mesma — e palpável — realidade.